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Maria

A Maria (nome fictício) apareceu-me com ar de menina e jeito de mulher. Demorou a tirar os fones dos ouvidos, afastou a cadeira para aumentar a distância entre nós  e que me lembre só sorriu uma vez. Tinha uma história sombria para contar, mas fê-lo com a emoção típica de quem já a contou tantas vezes que a história se tornou banal. Talvez assim doa menos… Era filha de pais toxicodependentes e sempre vivera no meio de muitas pessoas que mal conhecia, tinha sido várias vezes vitima de maus tratos físicos, já tinha assistido à morte por overdose de um amigo da família e já não se lembrava de quantas vezes a policia tinha ido lá a casa. Dizia sem hesitar que nunca tinha gostado de ninguém, não precisava disso e  não queria apegar-se.

Perguntei:

– Quem toma conta de ti?

– O meu gato! – respondeu como se fosse a resposta mais óbvia do mundo, talvez espantada por eu não ter adivinhado a resposta – ele deitava-se comigo na cama e cuidava de mim…. E eu tapava-lhe os ouvidos para ele não ouvir certas coisas!

E sorriu…

Quando vamos ser os gatos das Marias deste mundo?

Catarina Homem Costa

Dar novos instrumentos…

Dar novos instrumentos...

Por isso não basta dizer às crianças o que não podem fazer… Temos de lhes dar novos instrumentos para responder aos problemas do dia-a-dia.

Uma criança que à sua volta vê todos a resolverem os problemas a gritar, a insultar, a agredir ou a mentir, perante uma dificuldade que instrumentos tem para responder à situação? De que serve dizermos que não se deve comportar deste modo? De que serve pormos a criança de castigo ou darmos-lhe uma palmada, sem lhe darmos uma alternativa ao comportamento errado? O que lhe estamos a ensinar? Novas estratégias? Procure sempre que a criança pense que outras alternativas tinha, quais as consequências de cada uma das alternativas e qual a que devia ter escolhido… e principalmente dê o exemplo! Se diz que gritar ou bater não são uma forma de resolver os problemas e a criança pensa: “epa, mas a mãe/pai são tão crescidos e sábios e resolvem assim!”. Quantos pais vemos a dizer aos filhos para não gritarem com os irmãos ou não insutarem os colegas e eles próprios quando discutem gritam, insultam-se, agridem, etc. Isto vale tanto para pais, como para professores ou outros adultos. Se quer ensinar que o respeito é importante, respeite; se quer ensinar que “a falar é que nos entendemos”, resolva as coisas a falar; se quer que a criança o oiça, oiça-a…

Catarina Homem Costa

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